
É a pergunta que qualquer tradutor ouve com frequência: não chega usar o Google Translate ou o DeepL? A resposta curta é: depende do que pode correr mal. Para perceber um email de um fornecedor, a tradução automática é uma ferramenta excelente. Para um relatório clínico, um contrato ou o manual de uma máquina, já não é bem assim. Vamos ver onde está a fronteira.
O que a tradução automática faz bem
Os motores atuais, baseados em redes neuronais, melhoraram imenso e produzem frases fluidas. São ótimos para três coisas: perceber o essencial de um texto que não dominas, traduzir comunicação interna de baixo risco e gerar um primeiro rascunho que depois alguém vai rever.
O critério é simples. Se um erro custa, no máximo, um mal-entendido que se resolve com mais um email, a máquina serve. Se um erro pode custar saúde, dinheiro, um prazo legal ou a reputação de uma empresa, deixa de servir sozinha.
Onde começam os problemas: a tradução especializada
Nos textos especializados, o risco não está na gramática, que a máquina costuma acertar, mas no sentido. Cada área tem terminologia, convenções e consequências próprias:
- Médica: a sigla «MS» pode significar esclerose múltipla, sulfato de morfina ou estenose mitral. Um tradutor da área decide pelo contexto clínico; a máquina escolhe a opção mais provável, que nem sempre é a certa. Uma negação perdida ou uma dose mal convertida têm consequências sérias.
- Científica: a força de uma afirmação mede-se nos verbos. «Suggests», «indicates» e «demonstrates» não valem o mesmo, e trocar um pelo outro altera aquilo que o estudo afirma.
- Técnica: o mesmo termo tem de ser sempre traduzido da mesma forma. Se «bracket» aparece como «suporte» numa página e como «cantoneira» na seguinte, quem faz a manutenção perde tempo ou monta mal.
- Legal: muitos termos pertencem a sistemas jurídicos diferentes e não têm equivalente exato. Em direito inglês, «consideration» é a contrapartida de cada parte, e não «consideração»; e trocar «shall» por «may» transforma uma obrigação numa possibilidade.
O que torna isto traiçoeiro é que a tradução automática produz texto fluido mesmo quando está errada. Pode omitir frases ou acrescentar outras, e o resultado lê-se tão bem que ninguém desconfia. Só quem domina a língua de partida e a área consegue ver o que ficou pelo caminho.
Revisão e pós-edição: onde os olhos humanos fazem a diferença
Quando o texto é de risco, o ponto crítico não é quem faz o primeiro rascunho, é quem o revê. A indústria chama pós-edição ao modelo híbrido em que um tradutor humano parte do texto da máquina e corrige-o. A norma ISO 18587, dedicada a este processo, defende que só pós-editores qualificados devem intervir e que a pós-edição completa deve chegar a uma qualidade comparável à de uma tradução humana.
Há ainda a norma ISO 17100, para serviços de tradução, que exige que cada tradução seja revista por um segundo linguista qualificado antes da entrega. Percebe-se porquê: quem traduz tende a ler o que quis dizer, e não o que lá está.
O que um revisor humano verifica, para lá da gramática:
- terminologia correta e consistente do princípio ao fim;
- números, unidades, datas e nomes próprios;
- frases omitidas ou acrescentadas sem aviso;
- tom, registo e convenções adequados ao leitor e ao país de destino.
E em alguns casos nem há discussão. Segundo a DGES, quando é exigida uma tradução certificada em Portugal, quem a certifica são entidades como notários, advogados, solicitadores, consulados ou câmaras de comércio e indústria, e o tradutor tem de declarar perante elas que o texto é fiel. Nenhuma máquina faz isso.
Então, quando usar o quê?
Quanto maior o custo de um erro, mais olhos humanos o texto precisa. Esta é a minha regra prática:
| Tipo de texto | Só tradução automática? | O que recomendo |
|---|---|---|
| Perceber um email ou uma página web | Sim | Máquina, sem problema |
| Comunicação interna de baixo risco | Sim, com cuidado | Máquina; rever se o texto circular |
| Site, marketing e comunicação de marca | Não | Tradutor humano, ou pós-edição por um profissional |
| Documentação técnica e manuais | Só como rascunho | Pós-edição por tradutor técnico, com glossário |
| Artigos científicos e relatórios | Só como rascunho | Pós-edição por especialista na área e revisão |
| Documentos médicos | Não | Tradutor especializado e revisão por um segundo linguista |
| Contratos e documentos legais ou oficiais | Não | Tradutor jurídico; tradução certificada quando for exigida |
Um bom tradutor não compete com a máquina: usa-a quando faz sentido e assume a responsabilidade pelo resultado final. É essa responsabilidade, e não o dicionário, que a máquina ainda não consegue assumir.
